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A Hipster Chique

humor . coisas . nerd . fluente em klingon . criativa - ish . comics . opinião

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26
Mar17

#dia 71 - Viver na terrinha (sem dúvida a Parte 1)

A Hipster Chique

Penso ter o equivalente a um doutoramento quando se trata de falar sobre terrinhas, principalmente da minha. Quero mostrar-vos como é viver isolada do mundo e onde toda a gente se conhece. 

Vivi 20 anos da minha vida na pequena vila de Arouca, que hoje é a capital do Mundo. É o local de uma equipa que joga na primeira divisão de futebol, dos Passadiços do Paiva e dos maravilhosos doces conventuais.

Visto já ter dado o elogio acho que posso avançar e demonstrar-vos como é viver numa terrinha. Para ajudar a perceber melhor vou usar exemplos de chamadas que tive com a minha mãe...

 

Conhecimento

Mãe: "Sabes aquela vizinha do teu primo em segundo grau que fugiu com aquela brasileira para Mato-Grosso para viver como travesti?"

Eu: "Não..."

Mãe: "Aquela, que o afilhado do Sr. Amadeu da Junta engravidou?"

Eu: "Não..."

Mãe: "Aquela que trabalhou no talho e vendeu ganso em vez de porco ao filho da dona do café e..."

Eu: "Já sei quem é!" (não faço a mínima ideia de quem ela está a falar)

Pelos vistos é necessário obter informações detalhadas sobre os moradores para se ter uma vida social activa na terrinha. Eu não tenho isso...

 

Mortes

Eu: "Olá mãe, tudo bem?"

Mãe: "Não, morreu o Joaquim da Praça... Não viste no Facebook da filha dele?"

Eu: "Eu nem sei se tenho a filha dele no meu Facebook. E eu mal o conheço, porque havia de saber?"

Mãe: "Ah bom..." (diz com tom chateada)

Não, não me esqueci de numa parte da conversa. É ofenda não me preocupar com o morto e com o post que a sua filha pôs no Facebook.

Tramas

Mãe: "Aquela pega da Marisa anda agora sempre aqui de mãos dadas com o João. Supostamente ele andava metido com a irmã do Sr. Ferreira."

Eu: "E? Deixa-os estar. Como estás?"

Mãe: "Deixa estar não, anda a trair a rapariga aqui à vista de todos. Deve ser porque esta é mais bonita."

Eu: "Mãe, não te cons..go...o...vir...inter...rência..." (os meus sons de interferência são muito bons)

Eu imagino a minha mãe de binóculos, na varanda, vestida à militar e com o walkie-talkie a falar com a amiga vizinha para reportar o que se passa na base dela. 

 

Sem generalizar, é disto que uma boa parte da população vive nas terrinhas. E estes são poucos exemplos... Temos também dar importância ao que outro habitante compra, reclamar com os vizinhos só porque é um dia aborrecido, beatas e as suas instituições de bordado que deveriam ser consideradas mais importantes que o Centro de Saúde, entre outros. Talvez num post futuro.

 

A Hipster Chique (recuperada fisicamente, nunca mentalmente)

 

 

 

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